Category Archives

21 Articles

CINE REX: SEXO E KUNG-FU – SÉRGIO IDELANO

CINE REX: SEXO E KUNG-FU

Quem tem mais de 40 anos, como eu, vai lembrar, com um certo grau de nostalgia, do famigerado cine Rex. Situado na Praça Pedro II, no coração do centro de Teresina, notabilizou-se por passar apenas dois tipos de filme: sexo explícito ou lutas marciais. Não dava outra! Se não tivesse alguma loura oxigenada de seios enormes no cartaz, teria, inevitavelmente, a cara do Bruce Lee fazendo careta e com os dedos em forma de garra, a planejar algum golpe de mestre. E nós, alunos do Diocesano, todos menores de idade, iniciamos nossa vida pornográfica ali, já que não havia qualquer fiscalização na porta. Combinávamos sempre assistir aos filmes em grupo, uma vez que o lugar tinha fama de ser perigoso para adolescentes que se arriscavam sozinhos por aquelas plagas. Íamos pelo filme também, claro, mas íamos muito mais pela bagunça que envolvia o ambiente. Era impagável ver a multidão açodando qualquer incauto que resolvesse ir ao banheiro na hora do filme. Imediatamente começava a gritaria: “Já vai, né”? “Espera ao menos chegar em casa…”! “Punheteiro”! Eu, particularmente, preferia mijar nas calças a ir ao banheiro no meio do filme.

Os nomes dos filmes eram outra diversão à parte. Os títulos eram crus, sem qualquer tato, como “Rebuceteio”, “Vaginas Douradas” ou “Enfiando a Vara”. Dizem que o primeiro beijo ninguém esquece. Pois o primeiro filme pornô tampouco. O meu, pelo menos, nunca esqueci: “Sexo Explícito Sobre Rodas”! A sinopse do filme era mais ou menos assim: 4 garotas resolvem dar a volta ao mundo sobre bicicletas. Infelizmente, penso que elas não conseguiram sair nem do bairro delas, pois a cada 5 minutos de filme elas paravam para transar com alguém. Saíram de casa, andaram dois quarteirões e tinha um posto de gasolina com quatro frentistas. Sexo…Depois montaram na bicicleta e andaram mais alguns metros, até ver um prédio em construção com vários pedreiros. Sexo…E por aí ia. Nas quase duas horas de filme, elas não percorreram nem oito quarteirões! Imagino que hoje, passados 30 anos, elas tenham conseguido sair dos limites da cidade…Mas isso é só uma suposição. Outra coisa interessante era a total falta de diálogo. Elas vinham na bicicleta, avistavam um grupo de homens, desmontavam e mandavam ver, sem qualquer apresentação!

Íamos ao Rex uma vez por mês, mais ou menos. Mas tinha um colega nosso, que atendia pela alcunha de Pijama (usava sempre umas roupas folgadas, muito na moda naquela época), que era viciado no negócio. Quase todo santo dia saía do colégio para ir ao Rex. Um dia a turma o flagrou na fila para assistir ao filme “Jumento Gozador II”. Naquela época, fazíamos um concurso à noite, perto do Fripisa, para nos preparar para o vestibular que faríamos naquele ano. Quando o Pijama chegou à sala de aula, atrasado como sempre, começamos todos a relinchar. E o Pijama, ao saber o motivo da algazarra, não se fez de rogado e explicou a todos (inclusive às meninas), sem qualquer constrangimento, o motivo de sua ida ao dito filme: “Ora, porra, se eu já tinha ido ao Jumento Gozador I, não poderia deixar de assistir ao Jumento Gozador II. É continuação, ora…”.

Em suma, o Rex fazia parte de nossa paisagem, com aquela decadência majestosa que sua arquitetura impingia a todos. Aquele pé direito enorme, aquelas poltronas outrora elegantes, que ainda traziam vestígios de dias melhores, tempos áureos. O uniforme do bilheteiro, ostentando insígnias que poderiam fazer algum sentido no passado, não ali naquela época. Tudo isso em contraste com a decadência, que se materializava na plateia e nos filmes toscos projetados. Hoje, ao passar pela porta, sinto uma ponta de saudade martelando lá no fundo, e ainda consigo imaginar uma loira com seios enormes emoldurada em um cartaz, e o Pijama, com aquelas calças folgadas, em uma fila que não mais existe, salvo na imaginação dos que viveram aquela época.

Sérgio Idelano

O ESPERMOGRAMA – SÉRGIO IDELANO

                                              O ESPERMOGRAMA

Tempos atrás, entre o nascimento de minha filha mais velha e meu caçula, minha esposa andou tendo uns abortos e o médico passou uma série de exames, com o intuito de descobrir o motivo dos mesmos. Falou também que eu deveria fazer um espermograma, só para descartar qualquer problema quanto à “qualidade” dos meus espermatozóides. Como bom machista que sou, resisti o quanto pude. Contudo, a consciência pesou e resolvi fazer o tal exame, depois de minha mulher garantir que a clínica para onde me mandaria era especializada nesse exame e bem discreta. O médico, contudo, ao escrever o nome da clínica, confundiu-se e colocou o nome de outra no local. Deu-me o endereço da clínica ( a errada) e me despachou para lá, cedo da manhã. Cheguei e estranhei: o balcão de informações estava lotado e não parecia nem um pouco discreto. Perguntei, quase sussurrando, para a senhora que ali estava, se eles faziam espermograma. A mulher respondeu, como se tivesse um megafone na boca: “Espermograma? Faz, sim. Sandra, avisa o doutor que tem um rapaz aqui querendo fazer espermograma. Meu filho, sente ali e espere”. Sentei em um banco, sob o olhar divertido de cem pessoas, peguei uma revista qualquer, do século passado, e enterrei na cara.

 

Passados dez minutos, quando o povo já havia esquecido de minha presença, abre-se uma porta e sai um médico bem velho, dando escândalo: “ Chica, cadê o rapaz do espermograma”? Chica apontou para mim, com cara de sadismo. O médico veio, entregou-me um vidrinho para coleta do material e mostrou-me o banheiro que, claro, ficava no centro da sala de recepção. Ia entrando no banheiro, já disposto a acabar logo com aquele sofrimento, quando o médico gritou: “Hi, a menina não limpou ainda o banheiro. Espere mais um pouco, que ela vai passar um pano”. Disse que não precisava, dei um empurrão no velho, entrei no banheiro e tranquei a porta. Respirei fundo por cinco minutos, achando que não conseguiria ter uma ereção nem dali a dois anos. Consegui (com a ajuda do pensamento, diga-se de passagem, já que lá não havia revistas ou coisas assim), colhi o material, saí da porta (todos estavam olhando, com ares de expectativa), entreguei o vidro para a recepcionista e sai da clínica. Liguei para minha esposa, passei uma descompostura nela e disse que não iria pegar porra nenhuma de resultado.

 

Ela foi pegar. Meus espermatozóides, apesar dos pesares, estavam perfeitos!

 

Sérgio Idelano

NÃO ACREDITE EM TUDO QUE LÊ – SÉRGIO IDELANO

NÃO ACREDITE EM TUDO QUE LÊ!!!

       Fico surpreso com a quantidade de pessoas que aceitam, sem qualquer tipo de questionamento, tudo aquilo que colocam na internet. As pessoas leem no face qualquer eguagem e saem contando pra todos como se fosse uma coisa escrita em lei. Só para citar um exemplo, eu já recebi umas 14 mensagens dando conta que o pai de uma atriz morreu de leptospirose ao tomar cerveja na boca de uma latinha. O detalhe é que a cada vez que eu recebo é o pai de uma atriz diferente! Acho que todas as atrizes da Globo são órfãs! E todos os pais morreram de leptospirose!! E as pessoas continuam contando isso como se fosse uma notícia do jornal nacional!!! Querem mais? Recebo toda semana, há 6 anos, uma postagem de alguém me avisando que o face e o instagram vão começar a cobrar, e que pra eu evitar isso eu tenho que copiar um texto de 150 linhas e postar no meu face. O detalhe é que a tal cobrança, que nunca vem, é de $1,95 por ano! Puta que pariu! Me deixem em paz! Eu pago! Eu pago até R$50,00 por ano apenas para não ter que copiar aquele texto chato! Querem outra? O cidadão comum posta um texto enorme e pomposo, alertando ao facebook que, através daquilo ali, ele está proibindo o face de usar sua imagem e suas postagens, seja em território nacional ou no exterior, e no fim aconselha a todos que façam a mesma coisa, sob pena do face usar nossa imagem! Ah, vão se catar! Por que o face vai querer sua imagem, ou a minha? E se quiser, problema deles!!! Enfim, por causa desses e de inúmeros outros exemplos, que mostram que não temos discernimento ao ler uma notícia na internet ou nas redes sociais, é que vou dar aqui algumas dicas de como detectar eguagens e coisas falsas:

 

– ESQUEÇA! SEU PAU NÃO VAI AUMENTAR!: você vai receber inúmeras daquelas propagandas tipo aumente seu pênis em 7 cm em apenas 10 dias. Gente, é mentira!!! Isso é impossível! Nem que você amarre um tijolo e ande um mês com este tijolo dependurado seu bilau vai aumentar. Esqueça! Se você tem um pau minúsculo, você vai morrer com um pau minúsculo. E ponto final!

– A AOL NUNCA VAI DAR DINHEIRO PRA NENHUMA CRIANÇA QUE ESTÁ MORRENDO!: Gente, aquele texto que diz que a cada vez que você passa aquilo pra alguém a AOL paga tantos reais pra criança é picaretagem! Eles só querem que você propague pra outros a fim de tomar posse dos dados das pessoas, para nos encher de spanners. Fala sério! Querem ajudar, olhem à sua volta. Existem centenas de pessoas precisando de sua ajuda!

– PEDIR CURTIDAS PARA DETERMINADOS GRUPOS ESPECÍFICOS É RACISMO!: vou explicar melhor. Vez em quando recebo uma foto de uma criança negra e escrito algo assim: “Esta criança não vale uma curtida? Se você não curtir é porque você é racista”! Pois eu não curto, e racista não sou eu, é quem escreve isso. Como assim? Ela precisa ser curtida porque é negra? Qual o problema em ela ser negra? É uma criança, isso é o que importa! Um dia postaram a foto de um anão cuidando do seu filho e abaixo da foto várias palavras elogiosas ao anão por ele estar fazendo aquilo. Gente, o anão é gente como qualquer um de nós! Porque o anão não iria tomar conta de seu filho? Ele é anão e não um lobisomem! Ele tem bilau, faz filho e deve cuidar do filho dele, ora! Se ele não cuidar, eu mesmo é que não vou! Ele só está fazendo a obrigação dele! Não precisa curtir por isso!!!

– PAREM DE SACANEAR NOSSOS ÍDOLOS!: Não, Érico Veríssimo não escreveu aquela piada chula que você enviou! Não, Fernando Pessoa não escreveu aquela coisa melosa que você está compartilhando! Fernando Pessoa era sarcástico, e tinha uma análise cínica sobre a humanidade! Ele não escreveria uma coisa daquela! E John Lennon não escreveu nada disso! John Lennon estava muito ocupado se drogando e fazendo boa musica para ficar escrevendo textos sentimentalóides! Não compartilhe mais essas coisas! Deixe nossos ídolos descansarem em paz!!

– E, POR FIM, NÃO PERCA SEU PRECIOSO TEMPO LENDO NADA QUE TERMINE COM AUTOR DESCONHECIDO: fala sério! Se aquilo ali prestasse o cara seria um autor conhecido! O autor daquela aberração só é desconhecido porque ele mesmo está com vergonha de assinar o nome embaixo. Pule esses textos! Vai por mim, não vale a pena!

 

Enfim, mantenha um pé atrás com tudo o que você lê nesses tempos de mídia eletrônica! Existe uma grande possibilidade de ser uma notícia falsa! Não acredite nem mesmo neste texto que acabei de escrever. Ele é fruto de minha mente perturbada…

 

Sérgio Idelano

O INFERNO E SEUS HABITANTES – SÉRGIO IDELANO

O INFERNO E SEUS HABITANTES – SÉRGIO IDELANO

O INFERNO E SEUS HABITANTES

     O mundo está precisando de pessoas melhores, de ações melhores e de sentimen tos melhores. E nós, que temos um bom emprego e uma vida tranquila, temos a obrigação de sermos estas pessoas melhores. Devemos procurar sempre o melhor para nós mesmos, tanto na parte de saúde física e mental quanto na questão financeira, sem, contudo, nunca prejudicar um colega para alcançar seu objetivo. Suba na vida sem prejudicar ninguém! Vão para o inferno, em nossa humilde concepção (vamos fazer um exercício de imaginação e supor que o inferno exista), aquelas pessoas que passam por cima dos outros para conseguir seu objetivo, as que negam ao próximo uma ajuda que possam fornecer, as que olham seres humanos em volta passando fome e acham que não tem nada a ver com isso, afinal paga seus impostos. Vão para o inferno todos aqueles que deixam a vaidade tomar conta de sua vida, os arrogantes, os que se acham muita merda, os falsos, os inconfiáveis, os gananciosos e os violentos de alma. Vão para o inferno sem dúvida nenhuma os corruptos! Estes são os piores, pois envolvem dentro da corrupção todas as mazelas anteriores que citamos. Um corrupto é um arrogante, um falso, um inconfiável, um ganancioso e o pior tipo de violento, o que atenta contra os fracos, pobres e miseráveis. O que atenta contra a inocência!

 

Em nossa opinião, não obstante serem faltas menores, também vão para o inferno os que peidam no elevador, os que colocam carrinhos de supermercado atrás de outros veículos por preguiça de guardar no local adequado, os que entram em filas de pequenas compras com quantidade de itens em excesso, os que andam pelo acostamento para fugir do engarrafamento, os que tomam vinhos ruins, os que fazem fofoca, os que saem contando vantagem sobre quem comeu (quem você comeu só interessa a você e à pessoa comida), os que contam piada, os que mandam textos longos no whatsapp, os que cantam no microfone com uma voz horrível, os que fazem discursos longos, os que falam cutucando, os chatos e todos os que cometem atos similares.

 

E o que é o inferno? Dante descreveu o seu, a bíblia dá seu pitaco e eu também tenho minha própria visão do inferno. O inferno, em minha humilde visão, é o seguinte: Um lugar quente (mais quente que Teresina), onde a pessoa vai passar toda a eternidade sentada em um banco sem encosto, tomando cerveja Kaiser quente, lendo o mesmo livro de Sartre e com uma televisão à sua frente, cuja única programação é o Faustão. No som ambiente, a mesma música do João Gilberto intercalando com uma trilha composta apenas de funk e a música Trem Bala. Isso por toda a eternidade! Ao seu lado, inúmeras bailarinas gostosas completamente nuas se esfregando em você, sendo que, atente para um detalhe, você não tem pau (todos tem que deixar seus pênis na entrada do inferno)! A versão feminina do inferno é ficar toda uma eternidade em uma loja chique, tipo a Daslu, sem ter cartão de crédito, cheque ou dinheiro, sendo que, de meia em meia hora, você terá que se trancar em um provador de roupas e dar para o Ronaldinho Gaúcho (uma versão dele sem dinheiro, claro).

 

Desta forma, meus caros e minhas caras, vamos evitar esta terrível sina! Cuide cada qual de sua vidinha sem nunca, nunca mesmo, tentar sacanear seus semelhantes. Lembre-se: o mundo precisa de pessoas melhores! E nós podemos ser uma dessas pessoas melhores!

 

Sérgio Idelano

A VERGONHA DE DIZER NÃO SEI – SÉRGIO IDELANO

A VERGONHA DE DIZER NÃO SEI!

 

Percebo há muito tempo o grande constrangimento que nós, seres humanos, temos em falar que não sabemos algo que nos perguntam. E este constrangimento é ainda maior quando o assunto trata de coisas que, em tese, deveríamos dominar. E eu digo em tese porque na verdade não temos obrigação de dominar nada. Temos sim, se esta é nossa área e nosso trabalho, que estar sempre nos atualizando, estudando e pesquisando. Este é um ponto. O outro, completamente diferente, é termos obrigação de saber todas as respostas. E achamos que temos esta obrigação. Percebo na mesma hora quando vou tratar algo com um colega, por exemplo, e ele começa a enrolar e a divagar sobre pontos distintos daquele o qual eu inquiri. Porra! Custa dizer que não sabe? Custa dizer que não está seguro sobre aquele fato? Não há vergonha alguma nisso! Não temos a obrigação de sermos experts em tudo!

 

Sério, às vezes estou em minha sala e chega um gestor com algum questionamento sobre algo do qual não faço a mínima idéia. Sabe o que eu falo? Olho fixamente nos olhos e falo: “Cara, eu não sei a resposta para a sua pergunta. Mas vou conversar com meus colegas. Você pode me retornar amanhã”? Simples! Não vou ficar enrolando ninguém! Fazer isso é insegurança! É falta de humildade! Precisamos ser mais humildes! Precisamos ser mais honestos, com os outros e conosco! É esta matéria prima que anda faltando no Brasil: honestidade!

 

Só para ilustrar este fato, o de que temos sérios problemas em reconhecer que não sabemos sobre algo, vou contar uma história que aconteceu no meu tempo de faculdade. Existia um colega nosso do curso de agronomia que estava sendo “perseguido” por um tio para que desse jeito em um pé de goiaba que ele tinha e que estava sendo destruído pelas lagartas. O tio já havia mandado recado, ligado, mandado mensagem e implorado para que ele fosse à sua casa, antes que as lagartas acabassem com seu pé de estimação. Nosso colega, que fazia agronomia há apenas um ano e que não tinha pagado ainda nenhuma disciplina de entomologia ou fruticultura, ficou adiando a decisão e inventando desculpas, até o dia em que esse tio chegou de surpresa num barzinho em que nós bebíamos perto da universidade e pegou-o pela mão: “Vamos ali rapidinho. Eu te trago já de volta. Só quero que você veja o problema e passe um remédio”. Nosso colega, pálido, pediu a um colega que o acompanhasse. O colega falou que o acompanhava, mas que não ia dar opinião, já que não entendia do assunto. Então, sem mais outra desculpa, saíram do bar ele, o tio e este colega que foi acompanhando. Chegou lá (a partir de agora, tudo foi contado pelo colega que o acompanhou), fez de conta que examinou atentamente a árvore, pegou uma lagarta na mão, examinou-a atentamente, passou uns 5 minutos calado, com ar meditativo, e soltou o diagnóstico: “O negócio é o seguinte, tio: a lagarta é apenas uma fase da borboleta, a fase larval. Então o melhor a se fazer nestes casos é esperar elas virarem borboletas, que elas vão embora voando”. O tio do nosso colega olhou atentamente para ele, sem acreditar no que tinha escutado, e falou: “Você é um agrônomo de merda”! Nosso colega voltou ao bar e contou a história, que foi espalhada por toda a universidade, valendo ao nosso amigo o apelido de “Lagarta Pintada”, apelido este que o acompanhou por todo o curso de agronomia.

 

Apesar de ter rido muito e me divertido muito com esta história, nunca parei de pensar em como este colega se queimou por tão pouca coisa! Eu simplesmente teria dito ao meu tio: “Sinto muito, tio! Ainda não paguei nenhuma disciplina que me permita te ajudar com isso”. Só isso! Isso teria poupado inúmeros dissabores para ele! Então gente, humildade sempre. E honestidade! Ninguém perde nada com isso!

 

Sérgio Idelano

A VIDA É O QUE ESTÁ AO NOSSO REDOR – SÉRGIO IDELANO

A VIDA É O QUE ESTÁ AO NOSSO REDOR

 

 

A vida é feita de emoções. Emoções nem sempre boas. Alegria, tristeza, saudade, raiva, medo, tudo misturado num turbilhão em que coabitam.

 

O que é a alegria? Alegria é Ronaldo recebendo um cruzamento de longa distância, parando a bola carinhosamente e, numa arrancada fenomenal, braço escorando o holandês defensor, tocar a bola placidamente para o fundo da rede adversária. Alegria é Bebeto receber uma bola de Romário na medida, em um jogo tenso e com um jogador a menos, e tocar no ante-pé do goleiro americano. Alegria é Sócrates tocando de calcanhar, como se olhos tivessem esses calcanhares mágicos. É Zico batendo uma falta da marca da meia-lua, com a bola descrevendo uma trajetória elíptica e caindo no ângulo da trave, sem que o goleiro tivesse tempo de mexer. É o grito de campeão, já cinco vezes repetido, saindo aos borbotões da garganta de cada um de nós. Alegria é ver seu filho sorrindo. É voltar pra casa depois de um tempo fora. Alegria é viver!

 

E a saudade? Quem, na minha opinião, melhor resume o significado dessa palavra é Zeca Baleiro que, em uma bela música, diz: “ A saudade é Brigite Bardot, acenando com a mão, num filme muito antigo…”. E eu, pegando carona na bela imagem de Baleiro, vou além. A saudade também é Marylin Monroe com um vestido branco esvoaçando sob o efeito de um ar divino. A saudade é Jerry Lewis e Dean Martin, pilotando um carro vermelho em uma estrada do passado. A saudade é Paul Newman, uma bicicleta e uma colina verdejante. A saudade é Tom perseguindo Jerry, em uma rixa sem fim. A saudade é Pelé dando três chapéus na defesa adversária, contrariando a própria lei de espaço. A saudade é Vinícius e um copo de whisky sobre a mesa, copo que nunca mais transbordará poemas e músicas.

 

A tristeza. A tristeza é um prato vazio. É o prato que falta na mesa daquela criança famélica, de países que muitas vezes nem sabemos onde fica, que nos assombra o dia e o apetite em reportagens cruas e agressivas. Cruas, agressivas e reais. É a lágrima furtiva que derramamos, mesmo que depois deletemos de nossa mente a triste imagem. Tristeza são as crianças espalhadas pelas ruas e sinais de nossa cidade, mendigando uma cidadania que nunca vem. Crianças da idade de nossos filhos e netos, entaladas em nossa garganta como o pranto que tem vergonha de chorar.

 

E o ódio? O ódio é irmão do medo e da covardia. Andam sempre juntos. É o homem-bomba que, em nome de um Deus que deveria ser o de todos, explode e leva consigo para seu paraíso centenas de inocentes. É o agrupamento de torcedores que, em nome de um emblema, lincha um ser humano pela camisa que ele teve o azar de estar usando no momento. E, o pior, o ódio é transmitido, qual uma herança maldita, de pai para filho. Quem cresce cercado de ódio, vai propagá-lo adiante.

 

Esta é a vida, com todas suas emoções positivas e negativas, trazida para dentro de nossa casa. Cabe a nós, de posse da percepção correta do que é certo e errado, do que é o bem e o mal, do que é divino e diabólico, fazer brotar, dentro de nossas famílias, dentro da nossa sala, dentro de nosso lar, um outro sentimento, uma outra emoção: o amor.

 

Sérgio Idelano

SOBRE FILHOS E DIGNIDADE – SÉRGIO IDELANO

SOBRE FILHOS E DIGNIDADE – SÉRGIO IDELANO

            SOBRE FILHOS E DIGNIDADE

 

Desisti de ligar a TV por esses tempos. O assunto reinante é sempre o mesmo: mensalão, cuecas forradas de dinheiro, propinas e muita corrupção. Prefiro refletir sobre o assunto. Aliás, sempre procuro, antes de queimar alguém, colocar-me no lugar dessa pessoa. Será que comigo seria diferente? No caso em tela, será que eu aceitaria receber um mensalão? Será que eu aceitaria propina, de algum modo? A primeira resposta que me vem à cabeça é NÃO! Nunca aceitaria uma propina, de quem quer que seja. Prefiro sentar na poltrona de minha casa, ao fim do cotidiano de um dia, e olhar para os meus filhos com a consciência limpa, de quem tem cacife para tentar passar algo de bom para eles.

O que leva um deputado, com um bom salário, a aceitar um troço desses? O que leva um delegado da polícia federal, com um bom salário e um compromisso com a sociedade, a envolver-se em propinas? Por que? Aí minha mente crítica torna a me questionar sobre minha moralidade. Tudo bem, você não aceitaria propina se fosse um deputado ou delegado. Você não aceitaria propinas na sua situação atual. Mas sua situação é muito boa, digo para mim mesmo. Minha renda familiar permite que eu alimente meus filhos, dê educação e lazer para eles. E se não fosse assim? E se um de meus filhos estivesse passando fome? E se um de meus filhos tivesse uma doença grave e necessitasse de uma cirurgia cara? E se isso acontecesse e eu tivesse nas mãos uma proposta de ganhar muito dinheiro, embora por meios não muito honestos?

Minha mente pegou-me de cheio. Refleti bastante e cheguei à conclusão que, por meus filhos, sou capaz de tudo, até de mandar um vivente à terra dos pés juntos. Não sou, portanto, um poço de virtudes. Mas mantenho o meu posicionamento: procuro ser honesto, ser motivo de orgulho para eles. Não há nada mais gostoso que sentar numa mesa e tomar um chopp com os amigos sem qualquer drama de consciência: o chopp dos justos. O chopp de quem não recebe mesadas, o chopp de quem ganha pelo seu suor e só guarda na cueca seu instrumento de trabalho. Nesses tempos de culto exacerbado ao dinheiro, continuo preferindo o olhar tranqüilo de meus filhos a uma conta corrente polpuda. Continuo preferindo ter meus poucos e fiéis amigos de sempre (não tantos que eu não possa contar nos dedos de minhas duas mãos) a ter uma infinidade deles, nascidos da fértil atmosfera do poder e do dinheiro. Prefiro assim, como está. Que Deus me conserve assim!!!

 

Sérgio Idelano

BECAUSE LIFE IS TOO SHORT – SÉRGIO IDELANO

                                                             BECAUSE LIFE IS TOO SHORT…

 

Para quem não se ligou, este é o título de uma música do Skorpions e significa, em uma tradução livre, algo como “Porque a Vida é Curta Demais”. Então, e para não pensarem que não nos dedicamos a temas sérios, vamos dar aqui alguns conselhos aos nossos leitores, coisas que devem ser feitas (ou evitadas) enquanto você puder fazê-las (ou evitá-las). É que, sem querer fazer terrorismo, a qualquer hora, qualquer pessoa está passível de cair de cu trancado e passar desta para melhor. Enquanto isto não acontece (e desejo que nossos leitores tenham uma vida muito longa), e porque a vida é curta demais, é que sugiro:

 

– Não percas teu tempo com chatos. A vida é muito curta para aguentarmos pessoas desagradáveis. Eu, na época em que fiz 40 anos, jurei a mim mesmo não perder mais que 5 minutos com um chato e nunca, nunca mesmo, beber com um. Tenho conseguido cumprir, e me sinto bem melhor com isso (minha mulher diz que eu estou ficando meio selvagem. Mas, dane-se…).

 

– Não percas teu tempo com pessoas que não tem nada a ver com você. Pessoas metidas a importante, pessoas que tratam mal outra por estarem em superioridade financeira, ou hierárquica, pessoas bossais e que acham que sair na coluna social é a melhor coisa do mundo, estas eu também já cortei do meu cardápio. Não consigo tomar um vinho com uma pessoa que, na minha frente, humilhou um garçom, seja porque a comida estava ruim, seja porque o atendimento não foi bom. Não interessa! Existem outras formas de protestar, sem a covardia de atacar uma pessoa que não pode se defender, por medo de perder o emprego. Eu, por exemplo, não ataco ninguém e, quando ataco, só ataco pessoas que podem se defender.

 

– Não tome vinhos ruins! Hemingway disse, em uma frase que ficou célebre, que a vida é muito curta para se tomar vinhos ruins. O vinho aqui representa as coisas de um modo geral! Citei vinho porque sou fã de vinho, mas quero dizer aqui o seguinte: procure dar o melhor que você puder dar a você. Faça aquilo que tenha vontade, dentro, é claro, de seu orçamento. Viaje, conheça novos lugares, coloque a mochila nas costas. Compre um som legal. Vá a um show legal. Vá para uma praia. Se for possível, passe 4 dias em uma montanha cercada de neve! Caminhe, caminhe, caminhe.

 

– Não arrisque sua vida à toa. Ela já é curta e você ainda vai querer encurtá-la mais ainda? Se preciso for, leve desaforo pra casa de vez em quando. Isso não vai te matar. Outra promessa que fiz aos 40 anos: não ia mais xingar nem bater boca com ninguém no trânsito. Você não sabe o que está acontecendo com aquela pessoa que te deu uma trancada. Pode ter acabado de pegar um chifre, estar desempregado, liso, etc, e quer só um motivo para levar um pro inferno junto. Então, evite. Respire fundo e siga adiante. Estou conseguindo, apesar de uma ou outra recaída de vem em quando.

 

– No stress! Este é o principal. O stress vai te ferrando aos pouquinhos. Use sempre as sábias palavras “Tô Cagando e Andando”! Inventaram a porra de um ponto eletrônico que considero um atraso de vida? Tô cagando e andando…Descobri que algumas pessoas não gostam de mim, e até falam de mim pelas costas? Tô cagando e andando…Alguém que acho legal não parece ter a mesma opinião ao meu respeito? Tô cagando e andando…Uma viagem foi adiada, bateram no carro novo, o time está uma merda, a vida é dura? Tô cagando e andando…

 

– Comemore! Comemore tudo! Todos os momentos importantes. Eu faço assim. O vale alimentação aumentou R$12,00? Eu abro um vinho e comemoro. Entrei de férias? Comemoro. Fiz um check-up geral e deu tudo beleza? Vou jantar fora, abro um vinho e comemoro! Nós temos que demonstrar gratidão pelas coisas boas que acontecem com a gente! As coisas boas devem ser celebradas…as ruins esquecidas.

 

– Ah, e antes que eu me esqueça, faça sexo! Ainda não inventaram nada melhor para desopilar. Sexo seguro, viu, Mané? Ou tu quer encurtar a joça da tua vida mais ainda?

 

Bem, caso você siga à risca estes mandamentos de vida, garanto que você vai viver mais, e com mais qualidade de vida. Talvez perca alguns amigos, mas ninguém precisa de amigos em excesso não. Ninguém precisa mais do que uma dúzia de bons amigos. Tenha esta dúzia de bons amigos, vários bons colegas, bons companheiros de farra, pessoas agradáveis ao seu lado, e pronto. Você estará em boa companhia!

 

Sérgio Idelano

OLARIA – SÉRGIO IDELANO

OLARIAFOTO PRETO E BRANCO

     Juliana teve uma agradável surpresa quando foi escolhida para dirigir um importante departamento na Secretaria de Meio Ambiente. Relembrou do seu passado difícil e de sua chegada a Teresina há 20 anos, vinda das brenhas do Ceará. Batalhou bastante, terminou a faculdade de contabilidade, passou em concurso público, e hoje estava ali, assumindo um cargo de chefia que, tinha certeza, era por mérito próprio. Ao assumir, tratou logo de impor seu estilo; estilo rígido, de quem brigou pela vida e não admitia moleza. Era bastante respeitada e, por que não dizer, temida. Mas, era também admirada, e era justa.

 

Após dois meses no novo cargo, um dissabor. Chegou do Ceará uma prima, que não via há 20 anos. Estava pedindo uma colocação, qualquer que fosse, já que estava muito necessitada. Juliana, embora tenha detestado a surpresa, não era insensível aos problemas humanos, principalmente se o problema fazia parte de sua família. Conseguiu, então, arrumar para ela um cargo comissionado de Auxiliar de Escritório. O salário era pouco, mas dava para tirar do aperto.

 

No começo, tudo correu bem. Mas, com o tempo, sua prima começou a se soltar, e a usar o parentesco em toda a Secretaria, criando algumas situações constrangedoras. Um dia, no meio de uma reunião importante, ela invade a sala de reuniões com uma jarra de água, de aspecto todo barrento. Falou, com uma ponta de orgulho, como se estivesse resolvendo uma importante questão administrativa:

 

_ Prima, olha só a cor da água que está saindo dos bebedouros. Todo mundo está reclamando…

_ Estamos no meio de uma reunião. Podemos discutir isso mais tarde?

_ Parece aquela água que a gente bebia no açude de Orós…

 

Um dos presentes na reunião deu um riso, suficiente para fazer Constância (esse era o nome da peça) se animar, achando que estava sendo engraçada.

_ Ah, não sabiam não? No nosso lugar não tinha esse negócio de poço não. Todo dia a gente ia apanhar água no açude. Eu e Juliana, essa minha prima aqui, éramos encarregadas desse trabalho. Até o dia em que Juliana foi proibida pelo tio Terto de ir ao açude.

_ Dona Constância, estamos ocupados agora.

_ Por que foi mesmo prima? Ah, lembrei! É que ela começou a comer barro. O médico disse que era verme. Rapaz, isso comia um barro monstro! O prefeito, que era o médico também, até botou um apelido nela – olaria – devido à quantidade de barro que ela comia. Ah, minha infância, tempos que não voltam mais…”.

 

Juliana levantou-se, em meio ao riso de todos na sala, e puxando a prima pela mão, pediu que ela se retirasse. Voltou e conseguiu, a muito custo, encerrar a reunião, já que todos estavam com aquela cara de riso contido. Após a reunião, chamou a prima e passou uma descompostura nela, dizendo que nunca mais interrompesse uma reunião para falar de assuntos particulares. A prima ouviu calada e saiu, chorosa, da sala. Juliana ficou com a consciência um pouco pesada, mas achou que tinha feito a coisa certa.

 

Passaram-se mais algumas semanas sem maiores problemas, a não ser a certeza que a sua história tinha se espalhado, já que seu motorista, sempre que olhava para ela agora, ria, mostrando suas gengivas sem dentes. Resolveu ignorar isso e dar tempo ao tempo. Estava na mesma sala de reuniões, desta feita comemorando o aniversário de um colega. Tinha trazido um arroz maria-isabel e paçoca, e foi organizado um almoço, simples mas saboroso. Todos os funcionários do andar foram convidados, desde os mais graduados aos mais humildes. Entre estes últimos, Constância. No meio do almoço, esta fala, em voz alta:

_ Prima, você usando garfo?

 

Silêncio sepulcral. Benito, datilógrafo, pergunta:

 

_ Por que você está perguntando isso?

_ Você não sabe, não? Minha prima, até hoje, come fazendo capitão com a comida. Fui almoçar na casa dela e vi. Ela amassa o arroz, o feijão e a carne, e faz várias bolinhas no prato, e a partir daí vai comendo uma por uma.

 

Gargalhada geral. Constância continua:

 

_ Tão rindo de quê? É muito é bom, não é prima? Aliás, a prima sempre foi boa nesse negócio de comida. Lembra uma vez, nos festejos, que fizeram uma brincadeira para ver quem comia mais rapadura? O prêmio era um disco do Roberto Carlos e uma bijuteria. Adivinhem quem ganhou?

 

Todos rindo, Juliana pálida, ela continua:

 

_ A prima Juliana, claro. Comeu 17 rapaduras, 7 batidas e 3 alfinins. Teve uma diarréia que durou 5 dias. Mas ganhou o prêmio, não foi prima?

 

Juliana saiu da sala, e Constância, dois dias depois, saiu do emprego. Como Juliana é uma pessoa boa, prometeu mandar o valor do salário dela todo mês, do próprio bolso, desde que ela voltasse para o Ceará, e por lá ficasse.

 

 

                                  Sérgio Idelano

UM GENTLEMAN

UM GENTLEMAN          FOTO PRETO E BRANCO

     Álvares já assumiu aquele cargo causando boa impressão. Alto, bem vestido, cheirando a perfume caro, falava sempre com educação e um sorriso amistoso. Não demorou muito e a educação do Álvares passou a ser assunto constante nas rodas femininas e, por que não dizer, masculinas (estes a duvidar da masculinidade do rapaz). Nunca se ouvia a voz do Álvares alterar um decibel acima do normal. Mostrou-se, ainda, um perfeito pacificador de confusões. Conseguia, com seu carisma e suavidade, acalmar qualquer querela.

Foi aí que o nome dele começou a ser cogitado para fazer parte do Grupo de Negociações. O Grupo de Negociações era formado entre participantes da empresa e participantes dos sindicatos de trabalhadores. O grupo era conhecido, intimamente, como Grupo Gastrite, porque dizia-se que seus integrantes quase sempre saíam com uma gastrite. Isto devido ao caráter irascível e radical de alguns dos líderes sindicais, sendo um deles, o Tonhão, o verdadeiro terror dos participantes. Conseguia irritar qualquer ser vivente ao extremo, além de ter fama de agredir verbal e fisicamente seus desafetos. Pois bem, cogitaram o nome do Álvares, principalmente por conta de sua afabilidade e poder de sedução e convencimento. Álvares, sempre sorridente, aceitou a missão e todos deram como certo que a reunião, desta feita, iria correr tranquilamente.

No dia marcado para que o grupo se reunisse, os integrantes do sindicato chegaram e dirigiram-se à sala de reuniões, no 2ª andar do prédio, onde poderiam ter privacidade. Álvares passou pela sala dos colegas, distribuiu uns tantos de bons-dias, e subiu com seu simpático sorriso. Todos ficaram ali, conversando e esperando o resultado da reunião. Lá de cima, ao contrário das outras vezes, nenhum grito saía pela porta da sala, e todos atribuíam o fato à presença de Álvares. Foi então que, com mais ou menos uma hora de reunião, os funcionários puderam observar, estarrecidos, uma cena macabra. A porta foi aberta com um estrondo e surgiram Álvaro e Tonhão trocando bofetes. De repente, se atracaram e desceram todas as escadas rolando e trocando porrada. Todos correram para cima e, depois de muita luta, conseguiram tirar Álvaro de cima de Tonhão. Foi então que Álvaro, após rilhar os dentes, cuspiu um pedaço da orelha do seu opositor, enquanto vociferava, aos berros: “Quero ver tu ainda usar óculos. Quero ver tu ainda usar óculos”.

Álvaro foi destituído de sua função; e Tonhão, bem, Tonhão nunca mais usou óculos.

 

SÉRGIO IDELANO